A fotógrafa Kity Ramos lança, pela Editora Origem, Quando a Terra Sussurra, seu primeiro livro, em uma noite que marca também a abertura de sua primeira exposição individual. Livro e mostra reúnem imagens realizadas entre o sul da Etiópia e o norte do Quênia, em uma região que atravessa o Vale do Omo e as terras ao redor do Lago Turkana, um dos territórios de maior diversidade cultural do continente africano.
Mais do que documentar povos e costumes, Kity constrói um ensaio sobre pertencimento, comunidade e diferentes maneiras de compreender e habitar o mundo. Suas fotografias acompanham sociedades que mantêm relações profundas com a terra, a água, os animais, os ciclos naturais e conhecimentos transmitidos entre gerações. Arbore, Banna, Dassanech, El Molo, Gabbra, Hamar, Karo, Kwegu, Mursi, Njemps, Nyangatom, Pokot, Rendille, Suri e Turkana aparecem não como vestígios de um passado preservado, mas como sociedades contemporâneas, atravessadas por mudanças e pela tensão entre continuidade e transformação.
O território percorrido pelo livro acrescenta outra dimensão a esse olhar. Foi nessa parte da África Oriental que algumas das descobertas fundamentais sobre a história da humanidade ocorreram. Na Etiópia, foi encontrado o esqueleto de Lucy, um Australopithecus afarensis que viveu há cerca de 3,2 milhões de anos. Essa proximidade entre sociedades contemporâneas e uma paisagem ligada às nossas origens atravessa silenciosamente o trabalho. A viagem passa, assim, a suscitar questões anteriores às próprias fronteiras entre Etiópia e Quênia: como os seres humanos criam vínculos, = organizam comunidades, transmitem conhecimento e dão sentido ao território.
O ensaio fotográfico de Kity Ramos dialoga com o texto do jornalista e escritor Kaíke Nanne, que há três décadas pesquisa comunidades tradicionais e povos originários em diferentes partes do mundo. Esse universo atravessa também seus livros Como dançar com os mortos, no qual percorre cinco continentes em busca de conhecimentos ancestrais, cosmologias e rituais, e Akuntsú – Depois do fim, produzido em parceria com o fotógrafo documental e publisher Valdemir Cunha, sobre a trajetória de um dos menores povos indígenas do planeta e as consequências de décadas de violência sobre seu território na Amazônia.
Em Quando a Terra Sussurra, Nanne retorna a esse campo de investigação a partir dos povos do sul da Etiópia e do norte do Quênia. Seu texto não procura explicar as fotografias, mas estabelece com elas uma narrativa paralela, aproximando experiência, território e ancestralidade.
Publicado pela Editora Origem, Quando a Terra Sussurra integra uma linha editorial dedicada a projetos que investigam povos tradicionais, geografia humana, cultura popular e diferentes formas de relação entre pessoas e territórios. Fundada em 2001, a Origem construiu um catálogo que reúne cerca de 125 títulos e uma centena de autores, além de desenvolver exposições e projetos culturais em diferentes regiões do Brasil. A edição, a edição de imagens e a direção de arte do livro são de Valdemir Cunha, publisher e diretor de criação da editora.
Quando a terra sussurra - Kity Ramos
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